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O Dia em que a Copa do Mundo perdeu a inocência e a isonomia esportiva!

Quando um telefonema da Casa Branca atravessa as quatro linhas, a maior competição do planeta deixa de ser apenas futebol. A decisão da Fifa sobre Balogun abriu uma ferida profunda na credibilidade do Mundial e colocou a isonomia esportiva em xeque

Por Marco Osio Pugliese


O dia em que a Copa do Mundo perdeu a inocência e a isonomia esportiva!

O dia em que a Copa do Mundo perdeu a inocência e a isonomia esportiva / Foto: Getty Images

Existem derrotas que doem mais do que um gol aos 49 minutos do segundo tempo. Existem erros de arbitragem que revoltam. Existem decisões polêmicas que dividem opiniões. Mas, há algo infinitamente mais grave: quando a política invade o futebol e faz o regulamento dobrar os joelhos diante do poder.

Foi exatamente essa sensação que tomou conta da Copa do Mundo de 2026. Não escrevo estas linhas porque discordo da qualidade de Folarin Balogun. Muito pelo contrário. Trata-se de um excelente atacante, peça importante da seleção dos Estados Unidos, que pelo bem do esporte sucumbiu diante dos belgas em plena Seattle. Também não escrevo por antipatia aos norte-americanos. O problema jamais foi o jogador ou a camisa que ele veste.

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Craque belga, Lukaku ironiza ligação de Trump! Justiça feita: EUA deram adeus à Copa / Foto: Getty Images

O problema foi o precedente. O problema foi o telefonema. O próprio Donald Trump confirmou que ligou para Gianni Infantino para reclamar da expulsão aplicada pelo árbitro brasileiro Raphael Claus. O presidente da Fifa reconheceu que recebeu a ligação e afirmou que conversa regularmente com o presidente dos Estados Unidos sobre assuntos ligados ao Mundial, sustentando, entretanto, que a decisão final pertenceu aos órgãos disciplinares independentes da entidade.

É justamente aí que nasce o desconforto. Porque nenhuma Copa do Mundo deveria permitir que o simples fato de um chefe de Estado telefonar ao presidente da Fifa se tornasse parte da narrativa de uma decisão disciplinar. A imagem é devastadora. Enquanto centenas de seleções, atletas e torcedores acreditam que as regras são iguais para todos, o mundo assistiu ao dirigente máximo do país-sede entrar diretamente no centro da maior polêmica do torneio.

Mesmo que ninguém consiga provar que a ligação tenha determinado a mudança da punição, o estrago institucional já estava feito. A credibilidade também depende da aparência de independência. E ela desapareceu.

Raphael Claus aplicou cartão vermelho após revisão do VAR. O lance foi analisado, revisto e confirmado dentro do protocolo da arbitragem internacional. Até aquele momento, o futebol seguia seu caminho natural: um atleta comete uma falta grave, recebe a punição prevista no regulamento e cumpre suspensão automática. Era simples e justo.

Mas, bastou um telefonema. E tudo mudou. Balogun foi liberado para enfrentar a Bélgica. Não por decisão do árbitro. Não por um erro técnico reconhecido em campo. Mas sim por um processo extraordinário que coincidiu com a manifestação pública do presidente dos Estados Unidos. Como pedir que torcedores do mundo inteiro não desconfiem? Como convencer uma pequena seleção africana, uma equipe asiática ou um país sul-americano de menor expressão de que teria exatamente o mesmo tratamento caso seu presidente resolvesse telefonar para o presidente da Fifa?

Essa resposta simplesmente não existe. O futebol sempre vendeu uma ideia poderosa, que dentro das quatro linhas, o tamanho da economia não importa. O PIB não marca gols. O arsenal militar não vence partidas. Quem decide é a bola. Ou pelo menos era assim. Quando a política passa a frequentar a sala onde decisões disciplinares são tomadas, instala-se um veneno silencioso que destrói justamente aquilo que faz da Copa um patrimônio da humanidade: a igualdade entre os competidores.

Não importa se a intervenção foi direta, indireta, determinante ou apenas simbólica. Ela jamais deveria existir. Os defensores da decisão tentam recorrer ao histórico caso de Garrincha, em 1962, quando bastidores políticos também influenciaram a permanência do craque brasileiro na Copa do Chile. Mas, usar um episódio de mais de seis décadas para justificar outro em pleno século XXI não fortalece o argumento. Pelo contrário. Apenas demonstra que a Fifa continua sem aprender com os próprios erros.

O esporte evoluiu. Existe VAR e códigos disciplinares. Existe transparência. Ou deveria existir. Outro aspecto preocupante foi o silêncio institucional. A Fifa jamais conseguiu explicar de maneira suficientemente clara por que uma suspensão automática foi revista em circunstâncias tão excepcionais justamente depois de uma mobilização política de enorme repercussão internacional.

No esporte de alto rendimento, transparência não é favor. É obrigação. Quando ela desaparece, nasce a suspeita. E suspeita é algo que nenhuma competição esportiva suporta por muito tempo. Curiosamente, o futebol tratou de oferecer sua própria resposta. Dentro de campo. A Bélgica transformou a indignação em combustível e aplicou um contundente 4 a 1 sobre os Estados Unidos.

Foi uma vitória construída apenas com aquilo que sempre deveria decidir uma Copa do Mundo: talento, organização, disciplina e futebol. Nenhum chefe de Estado entrou em campo. Nenhuma ligação mudou o placar. O gramado restabeleceu uma parte da justiça que os bastidores insistiram em colocar sob suspeita.

Não, não acredito que exista conspiração permanente na Fifa. Também não acredito que toda decisão controversa seja fruto de interferência política. Mas acredito profundamente que algumas atitudes são incompatíveis com a grandeza da Copa do Mundo. Chefes de Estado podem torcer. Podem até lamentar decisões da arbitragem, afinal líderes não deixam de ser torcedores. Isso pode!  O que jamais deveria parecer normal é participar, ainda que indiretamente, da narrativa que envolve uma punição disciplinar durante a competição.

A Copa pertence ao mundo. Não à Casa Branca. Não ao presidente da Fifa. Muito menos aos interesses políticos de ocasião. Se quisermos preservar o encanto do maior espetáculo esportivo do planeta, será preciso estabelecer uma linha absolutamente intransponível entre o poder político e as decisões esportivas. Porque, quando essa fronteira desaparece, desaparece junto a confiança do torcedor. E sem confiança, sobra apenas entretenimento.

O futebol merece mais do que isso. A Copa do Mundo merece mais do que isso. E nós, apaixonados pelo esporte, também. Obrigado aos Deuses do Futebol pela justa eliminação dos EUA! E agora, Trump???

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