Brasil

O voo solitário da vergonha: quando a Seleção virou apenas um compromisso de agenda

Apenas o lateral Danilo voltou ao Brasil no avião da CBF. Os demais jogadores preferiram seguir diretamente para as férias. Mais do que uma decisão logística, o episódio simboliza o abismo que hoje separa a Seleção Brasileira do sentimento do povo

Por Marco Osio Pugliesi


O voo solitário da vergonha: quando a Seleção virou apenas um compromisso de agenda / Foto: reprodução internet

Rio de Janeiro, madrugada desta quarta (8). O voo da vergonha pousa no Galeão. Dos 26 jogadores convocados, apenas um viajou no voo fretado pela CBF: Danilo. A melancolia toma conta do saguão. Afinal, não foi apenas a derrota para a Noruega que machucou o torcedor. Foi a imagem que ficou e segue persistindo depois dela.

Os outros 25 jogadores seguiram diretamente dos Estados Unidos para seus destinos particulares, iniciando férias ou retornando aos países onde atuam por seus clubes. A justificativa pode até ser prática, logística ou contratual. Mas futebol nunca foi movido apenas pela lógica. Futebol também vive de símbolos.

Continua depois da publicidade

E o símbolo deixado por esse desembarque foi devastador. A seleção não fica mais aqui. Nem mesmo o comandante é brasileiro! Enquanto milhões de brasileiros ainda tentavam entender como a seleção pentacampeã voltou para casa tão cedo, praticamente todo o elenco já estava pensando no descanso, nas viagens, nas praias, nas famílias e na próxima temporada.

O Brasil ficou para depois. Sem cobrança de torcedores e da imprensa. Não quero dizer que os atletas são covardes. Mas, caso o hipotético hexa fosse conquistado, os mesmos que evitaram a terra natal certamente desembarcariam nos braços do povo. Mas, não é mais assim! Deu saudade até do embriagado Vampeta dando cambalhotas no Planalto sob os olhos de um espantado Fernando Henrique Cardoso, então presidente da República. Para os jovens, a debandada atual talvez soe como profissionalismo. Mas, para os experientes, que já viveram o Tri, o Tetra e o Penta, a desilusão toma conta.

A camisa mais pesada do mundo parece ter perdido o peso. Houve um tempo em que vestir a camisa amarela era uma missão quase sagrada. Pelé, Tostão, Jairzinho, Rivellino, Romário, Bebeto, Cafu, Ronaldo, Rivaldo, São Marcos… todos entendiam que defender a Seleção era muito mais do que disputar um campeonato. Era representar mais de 200 milhões de brasileiros.

Perder fazia parte do esporte. Mas havia uma obrigação moral: encarar o país! Dar explicações. Ser homem. Olhar nos olhos do torcedor. Sentir a dor coletiva, principalmente a dor das crianças, que representam o Brasil de amanhã!

Hoje, infelizmente, isso parece ter desaparecido. A Seleção desembarcou  escondida. Sem capitão falando. O avião da CBF virou quase um voo fantasma. Reserva no Flamengo, Danilo, sozinho, representou o que deveria ser coletivo. Saiu calado. Não concedeu entrevistas. Quando apenas um jogador faz aquilo que, simbolicamente, se esperava de todos, algo claramente está errado.

O futebol moderno criou profissionais. O Brasil precisa de representantes. Será que era impossível que o grupo voltasse unido ao país que representou durante um mês? A resposta talvez seja não. A questão é que provavelmente ninguém considerou isso importante.

E justamente aí mora o problema. A distância entre Seleção e torcida nunca foi tão grande. Durante décadas, a Seleção Brasileira era patrimônio emocional do povo. Hoje ela parece funcionar como uma reunião periódica de atletas que se encontram algumas vezes por ano, mas não fica mais aqui! A seleção de Ancelotti é muito mais europeia do que brasileira. Os jogadores não estão nem aí para as crianças que pintam ruas, que sofrem, que choram, que enxergam nos jogadores verdadeiros heróis! Como diria Samuel Rosa, lá em 1995, “quem não sonhou em ser um jogador de futebol”?

Quem falou foi o incompetente Rodrigo Caetano. Segundo o executivo, a prioridade agora é dar continuidade ao trabalho de Carlo Ancelotti. Quem liga para Ancelotti? Quem liga para essa seleção fracassada pós-Copa? Não me perguntem sobre 2030. Não quero saber! Quem viu a seleção do Brasil, viu…porque a seleção não é mais do Brasil…

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail e telefone não serão publicados. Todos campos são obrigatórios*