Em 2014, a entidade impôs exigências ao Brasil e pressionou até por mudanças legislativas. Em 2026, diante das restrições migratórias dos EUA, o discurso é bem diferente

“Bem-vindo aos Estados Unidos”. Jornal L’equipe, da França, ironiza política migratória americana / reprodução X
Por Marco Osio Pugliese
A Copa do Mundo sempre foi vendida como uma celebração global do futebol. Desde 1930, quando foi realizada no Uruguai. Mas, ao longo dos anos, ela também revelou outra realidade: a enorme capacidade de influência da FIFA sobre governos nacionais.
O Brasil conhece bem essa história. Viva a Farra de 2014!
Durante os preparativos para a Copa de 2014, a FIFA exigiu mudanças legais, comerciais e operacionais para atender aos seus interesses. O país aprovou a chamada Lei Geral da Copa, criou exceções temporárias à legislação vigente e adaptou regras para cumprir compromissos assumidos com a entidade.

Triste fim de Jerome: Do “chute no traseiro” no Brasil às denúncias de corrupção e expulsão da FIFA / Foto: AP
Na época, o então secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, protagonizou uma das declarações mais polêmicas do processo ao afirmar que o Brasil precisava levar um “chute no traseiro” (quem se lembra?) para acelerar os preparativos. A frase gerou indignação nacional e virou símbolo da relação desigual entre a entidade e o país-sede.
Mesmo diante da repercussão negativa, a FIFA manteve suas exigências. O Brasil se adaptou.
Doze anos depois, o cenário é completamente diferente!
A Copa de 2026 acontece majoritariamente nos Estados Unidos, país que adota uma política migratória rígida e que vem gerando questionamentos de organizações internacionais, torcedores e até profissionais ligados ao torneio. O caso do árbitro somali Omar Artan, impedido de entrar em território americano, ganhou repercussão mundial.
Embora cada país tenha soberania para definir suas regras migratórias, o episódio levantou uma questão inevitável: onde está a FIFA que cobrava flexibilidade dos governos quando seus próprios representantes enfrentam barreiras para participar do evento?
A resposta parece simples. Quando a Copa aconteceu no Brasil, a FIFA falava alto. Nos Estados Unidos, a entidade fala baixo. Não se trata de defender fronteiras abertas ou ignorar preocupações legítimas de segurança nacional. Trata-se de coerência.
Se a FIFA afirma que a Copa pertence ao mundo, deveria defender com a mesma intensidade o acesso de árbitros, profissionais, jornalistas e torcedores independentemente do país anfitrião.
O contraste chama atenção
Em 2014, o Brasil foi pressionado a adequar leis e procedimentos para atender ao torneio. Em 2026, a entidade parece aceitar restrições impostas pelo governo americano sem demonstrar nem de perto o mesmo grau de exigência institucional.
A situação cria um desconforto inevitável. Afinal, quem manda na Copa? Durante anos, a impressão era de que a FIFA ditava as regras e os países obedeciam. Agora, a percepção é de que a maior organização do futebol mundial precisa se adaptar às determinações de Washington.
O risco é transformar um evento global em uma competição marcada por barreiras burocráticas, dificuldades de acesso e constrangimentos diplomáticos. A Copa do Mundo deveria aproximar povos, não criar obstáculos adicionais para quem deseja participar dela.
O episódio envolvendo Omar Artan talvez seja apenas um caso isolado. Mas ele simboliza uma discussão maior: até que ponto a FIFA mantém o mesmo padrão de exigência quando muda o país-sede?
Se em 2014 o Brasil precisou se curvar às demandas da entidade, muitos observadores se perguntam se, em 2026, não é a própria FIFA que está se curvando às regras impostas pelos Estados Unidos.
E essa talvez seja uma das histórias mais interessantes — e controversas — desta Copa antes mesmo do primeiro apito.
Em 2014 sobrou até para o Martins Pereira, estádio que perdeu a alma!
A cidade de São José dos Campos em 2014 era governada pelo mesmo partido que administrava o Brasil. Município importante do rico interior paulista, é lógico que São José também herdaria as bizarrices da Farra da Copa. Dentre as promessas de receber a seleção de Costa do Marfim e seu craque Drogba, o que não se concretizou, a cidade recebeu apenas uma mal explicada reforma no principal palco esportivo da RM Vale: o estádio Martins Pereira!
A “Farra” construiu um prédio no estádio, diminuiu a capacidade e ainda inverteu a entrada principal do Martins. O resultado: um estádio sem “alma”, como definia o advogado e torcedor ilustre da Águia, Cezar Trunkl, que infelizmente foi chamado ao céu cedo demais, pouco tempo depois de atuar na presidência do Conselho Deliberativo do clube e trabalhar, de forma voluntária, pela devida contabilidade e esclarecimento das milionárias dívidas do São José Esporte Clube.
A entrada nostálgica pelo famoso “escadão” do Martins foi alterada. Pobre torcedor, que sequer foi ouvido sobre as mudanças. E se preparem, vem mais farra por aí com a Copa do Mundo de futebol feminino em 2027! Viva o esporte, salve a Copa, “parabéns” à Fifa! Que venha o Hexa!




Bela matéria quando não vemos nenhum outro meio de comunicação lembrando dos fatos de 2014.