Turbina a etanol de 1 MW é apresentada a Lula em São José dos Campos e avança para redução de custos e produção em escala.

A turbina a etanol UGEE1000BR foi apresentada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta segunda-feira (13), no Instituto de Aeronáutica e Espaço, em São José dos Campos. Com potência de 1 megawatt, o equipamento usa tecnologia desenvolvida no Brasil e poderá atender áreas isoladas e situações emergenciais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conheceu o equipamento durante uma agenda oficial no Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA). A visita incluiu instalações e projetos desenvolvidos por instituições ligadas à Força Aérea Brasileira.
A UGEE1000BR é uma unidade de geração de energia elétrica abastecida com etanol hidratado. O projeto foi desenvolvido pela Aero Concepts em parceria com o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), a FW Soluções Industriais e a GA Automation.
A Força Aérea Brasileira classifica a unidade como um demonstrador tecnológico inédito no país. O equipamento já havia sido apresentado oficialmente pelo DCTA em uma cerimônia realizada em 1º de julho de 2026. Nesta segunda-feira, o projeto foi apresentado ao presidente da República.
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Lula defende soberania tecnológica

Durante a visita, Lula afirmou que o desenvolvimento de tecnologias próprias está diretamente relacionado à soberania nacional.
“As Forças existem para defender a soberania nacional. Não tem sentido um país do tamanho do Brasil não ter o suporte para ser dono do seu nariz em um monte de coisas que nós podemos utilizar”, declarou.
O presidente também destacou a estrutura científica existente em São José dos Campos e citou instituições como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e o DCTA.
“Somos um país que tem o privilégio de ter o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA. Quando eu venho aqui ao DCTA, vejo a capacidade que o Brasil tem”, afirmou.
Em outro trecho do discurso, Lula disse que o país precisa recuperar protagonismo na criação e no domínio de tecnologias estratégicas.
“Nós já perdemos a supremacia de ser o país que inventou o avião”, declarou o presidente.
A afirmação foi feita no contexto de uma defesa de novos investimentos em pesquisa, inovação, formação profissional e capacidade industrial brasileira.
Tecnologia desenvolvida no Brasil
Em entrevista à Life Informa, o diretor da Aero Concepts, Alexandre Roma, afirmou que o principal diferencial do projeto está no domínio nacional da engenharia da turbina.
Segundo ele, experiências anteriores envolvendo o uso de etanol em turbinas utilizaram equipamentos fabricados por empresas estrangeiras. Nesse modelo, o Brasil não possuía controle integral sobre o projeto, os componentes e os resultados tecnológicos.
“Diferentemente do que já existiu no passado, com Petrobras e GE, esta é uma turbina nacional. Tudo o que é engenharia, cálculo e desenvolvimento nós temos, porque foi fabricado e desenvolvido aqui dentro do IAE, com a empresa”, afirmou Roma.
O diretor explicou que o domínio da tecnologia permite realizar no Brasil as adaptações, os testes e os aperfeiçoamentos necessários para a utilização do etanol.
“Agora, tudo o que precisamos fazer para o uso do etanol pode ser desenvolvido dentro de casa. Passa a ser uma tecnologia totalmente dominada por nós”, declarou.
Como funciona a turbina

Embora seja chamada de turbina a gás, a unidade pode utilizar combustível líquido. O nome se refere aos gases quentes gerados na câmara de combustão, que movimentam a turbina e acionam o gerador elétrico.
O combustível é pressurizado e pulverizado por bicos injetores em pequenas gotículas. Esse processo favorece a mistura com o ar e mantém a combustão contínua.
Segundo Roma, a tecnologia pode ser adaptada para combustíveis como querosene, diesel e etanol. Cada combustível, entretanto, apresenta propriedades diferentes e exige ajustes específicos.
O etanol possui poder calorífico menor que o querosene e o gás natural. Conforme os dados apresentados pelo diretor, querosene e gás natural possuem cerca de 40 megajoules por quilograma, enquanto o etanol apresenta aproximadamente 23 a 24 megajoules por quilograma.
Isso significa que uma quantidade maior de etanol precisa ser consumida para produzir a mesma quantidade de energia.
O combustível também apresenta características químicas que exigem materiais e soluções capazes de evitar corrosão e manter a estabilidade da queima.
Potência de 1 megawatt
A turbina a etanol possui potência de geração de 1 megawatt. Segundo estimativa de Alexandre Roma, a capacidade poderia atender aproximadamente 3.600 residências.
Essa equivalência depende do consumo médio de eletricidade utilizado no cálculo e das condições de operação. Por isso, o número não representa uma quantidade fixa de imóveis atendidos em qualquer cenário.
Para operar na potência informada, o consumo estimado é de aproximadamente 900 litros de etanol por hora.
“A geração acontece enquanto houver combustível. Para atender o equivalente a 3.600 residências, estamos falando de um consumo em torno de 900 litros por hora”, explicou Roma.
O diretor reconheceu que o volume é elevado, mas ressaltou que o equipamento poderá ter aplicações estratégicas em regiões onde exista disponibilidade de etanol.
Entre os usos previstos estão áreas isoladas, operações emergenciais, hospitais de campanha, estruturas temporárias e locais afetados por interrupções no fornecimento de energia.
Próximo passo é reduzir custos
A unidade deriva da TR5000, turbina aeronáutica cujo desenvolvimento teve início em 2005. Segundo Roma, os testes necessários para a adaptação ao etanol já foram realizados.
O próximo desafio será tornar o equipamento economicamente competitivo e preparar uma estrutura capaz de produzir novas unidades em escala.
“A turbina já está pronta do ponto de vista tecnológico. O que precisamos agora é transformar isso em um produto economicamente viável”, afirmou.
A indústria aeronáutica utiliza materiais resistentes a condições extremas, mas que possuem custos elevados. Para uma turbina estacionária, parte desses componentes poderá ser substituída por materiais mais adequados e menos caros.
“Agora é trabalhar em como otimizar os custos para que ela seja um produto viável”, acrescentou o diretor.
Até o momento, não foram divulgados o preço comercial, o cronograma de fabricação ou a data prevista para o início da produção em série.
Bancos de ensaios foram essenciais
Roma também destacou a importância dos laboratórios e bancos de ensaios do IAE para o desenvolvimento do projeto.
Segundo ele, não é possível desenvolver turbomáquinas sem estruturas capazes de testar componentes, sistemas de combustão, resistência dos materiais e desempenho da unidade.
“Não existe desenvolvimento de turbomáquinas e turbinas sem bancos de ensaios. A estrutura laboratorial é muito cara”, declarou.
O diretor estima que os investimentos públicos acumulados na infraestrutura utilizada pelo IAE estejam próximos de R$ 200 milhões.
O valor não representa o custo específico da UGEE1000BR. Trata-se de uma estimativa apresentada por Roma sobre os investimentos realizados ao longo dos anos em laboratórios, equipamentos e bancos usados por diferentes projetos.
“Se não existisse o apoio da FAB e, principalmente, da Finep, esses projetos não existiriam, porque não teríamos a capacidade laboratorial necessária para o desenvolvimento”, afirmou.
A FAB destaca que projetos como a UGEE1000BR reforçam a integração entre governo, centros de pesquisa e indústria, além de ampliarem a autonomia tecnológica brasileira.
Projeto prevê ciclo combinado
Uma próxima fase do projeto prevê a implantação de um sistema de ciclo combinado.
Nesse modelo, parte do calor liberado pela turbina pode ser reaproveitada para gerar energia adicional, aumentando a eficiência do conjunto e reduzindo o consumo de combustível por unidade de eletricidade produzida.
Roma afirmou que essa etapa poderá ampliar a flexibilidade da tecnologia e melhorar sua viabilidade econômica.
O etanol é renovável e produzido em larga escala no Brasil, mas não deve ser descrito como uma fonte completamente livre de impactos ambientais.
A avaliação das emissões depende de toda a cadeia, incluindo produção agrícola, processamento, transporte, eficiência da turbina e origem da energia utilizada na fabricação do combustível.
Por isso, a formulação mais precisa é que o etanol possui potencial de redução de emissões em comparação com combustíveis fósseis, dependendo das condições de produção e utilização.



