Com salário fixo, ranking secreto e risco de “rebaixamento”, CBF aposta alto para salvar a credibilidade do apito — mas torcedor segue desconfiado

A CBF resolveu mexer onde mais dói no futebol brasileiro: a arbitragem, considerada a pior das grandes potências do esporte mais praticado do planeta! E fez isso com um pacote robusto, caro e, no papel, histórico. Salário fixo, contratos inéditos, ranking de desempenho, risco real de “rebaixamento” e quase R$ 200 milhões em investimentos. A pergunta que não quer calar é simples — e incômoda: isso vai melhorar a pior arbitragem do mundo ou só profissionalizar o erro?
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Pela primeira vez, a Confederação Brasileira de Futebol cria uma espécie de “elite do apito”. São 72 árbitros e assistentes com contrato de prioridade, rotina diária, metas, avaliações constantes e a promessa de estabilidade financeira. Em tese, acaba a desculpa clássica do árbitro “amador”, que trabalha durante a semana e apita jogos de alto risco emocional e financeiro no fim de semana. Agora, eles passam a viver de arbitragem.
O investimento impressiona. R$ 195 milhões em dois anos, com aumento significativo em relação ao ciclo anterior. Um árbitro FIFA pode chegar a ganhar algo próximo de R$ 50 mil mensais, valor impensável até pouco tempo atrás. É dinheiro público do futebol sendo colocado na tentativa de resolver um problema crônico, que mina a credibilidade do campeonato, inflama torcidas, derruba técnicos e influencia diretamente resultados.
Mas é justamente aí que mora o ponto mais sensível.
O Brasil não sofre apenas com árbitros mal pagos. Sofre com critérios confusos, interpretações elásticas da regra, falhas grotescas com VAR, corporativismo, falta de transparência e uma cultura histórica de proteção interna. Profissionalizar sem romper esses vícios pode transformar o erro em algo mais bem remunerado — e nada além disso.
A criação de um ranking interno, com possibilidade de não renovação de contrato, é um avanço? Sim. Mas o fato de esse ranking não ser público levanta suspeitas. Se a arbitragem influencia diretamente o espetáculo e o resultado esportivo, por que a avaliação de desempenho segue sendo tratada como segredo de Estado?
Outro ponto polêmico é a chamada “nova geladeira”. O árbitro que cometer erro grave será afastado por 28 dias e pode retornar em divisão inferior. Parece punição, mas soa mais como reciclagem silenciosa, algo que o futebol brasileiro já conhece bem. Quantas vezes erros graves foram tratados como “interpretação” ou “lance difícil”?
A CBF promete tecnologia total: VAR em todos os jogos, impedimento semiautomático, árbitro com câmera, tecnologia da linha do gol. Tudo aprovado pela FIFA. Mas tecnologia não decide sozinha. Quem aperta o botão ainda é o mesmo árbitro, agora de crachá novo e salário fixo.
Há também uma contradição curiosa: mesmo com a criação da elite, a própria CBF admite que jogos da Série A poderão ter árbitros fora desse grupo, especialmente partidas de menor apelo técnico. Ou seja, nem o campeonato principal terá padrão único. Um clássico decisivo com “elite do apito”, outro jogo que também vale rebaixamento com árbitro fora do projeto. Coerente?
O projeto é, sem dúvida, uma inovação estrutural. É um passo que demorou décadas para ser dado. Mas inovação não é sinônimo de solução automática. O torcedor brasileiro não quer saber de lentidão em decisões ou lances idênticos com interpretações distintas. Ele quer algo básico: menos erro grotesco, menos protagonismo do apito e mais justiça dentro de campo.
A profissionalização da arbitragem brasileira pode ser o início de uma virada histórica — ou apenas mais um capítulo caro de um problema antigo. O futebol vai responder rápido. Porque no Brasil, o árbitro não é julgado por relatórios internos. É julgado pelo próximo lance capital que decidir um jogo.
E esse, salário nenhum apaga.
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