Implantadas para proteger, faixas em entradas do Aquarius obrigam freadas bruscas em via de alta velocidade e concentram conflitos, colisões e medo de atravessar

*Matéria Capa da Revista Aquarius Life de fevereiro
Implantadas há décadas – com a finalidade de proteger o pedestre – as faixas localizadas nas principais entradas do Jardim Aquarius, zona oeste de São José dos Campos, passaram a ser vistas por moradores e motoristas como pontos críticos de risco.
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A situação envolve acessos pelas avenidas Salmão, Tubarão, Alfredo Inácio Nogueira Penido e Armando de Oliveira Cobra, todas conectadas diretamente à avenida Cassiano Ricardo — uma das mais importantes e movimentadas vias da cidade.
O grande problema está na combinação entre velocidade da via, volume de tráfego e posicionamento das defasadas faixas. A avenida Cassiano Ricardo possui três faixas de rolamento no sentido centro. A faixa da direita é justamente a mais utilizada por motoristas que pretendem acessar o bairro por estas avenidas. Embora o limite regulamentado seja de 60 km/h, na prática, muitos veículos realizam a aproximação para conversão ainda em velocidades entre 40 km/h e 50 km/h, reduzindo apenas parcialmente antes de entrar.
Nessas condições, quando um pedestre se posiciona junto à faixa e sinaliza intenção de travessia, o condutor é obrigado a frear de forma imediata e intensa – o que gera o principal ponto de conflito. Pela legislação brasileira, o pedestre tem prioridade. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) determina que o condutor deve reduzir a velocidade e parar o veículo sempre que houver pedestre na faixa, ou quando este demonstrar intenção de atravessar. Em áreas urbanas, a preferência é do pedestre, mesmo quando não há semáforo. Ou seja, o motorista é legalmente obrigado a parar, e o pedestre está correto ao atravessar.

O problema, segundo moradores e especialistas, não está no direito do pedestre, mas no desenho viário que obriga uma parada repentina em uma via de alta velocidade, sem espaço adequado de desaceleração. Nas avenidas Salmão e Alfredo Inácio N. Penido a situação é considerada ainda mais sensível. Embora a faixa esteja visível, a geometria da curva e a dinâmica de tráfego fazem com que muitos condutores só percebam o pedestre em um momento já muito próximo da travessia. Os resultados são freadas bruscas, buzinas, desvios de última hora e, em diversos casos, colisões traseiras.
Por outro lado, a Life conversou com um especialista em trânsito (engenheiro de tráfego que prefere não se identificar) que aponta que nem todas as entradas apresentam o mesmo nível de risco. Um exemplo citado é o acesso da avenida Cassiano Ricardo para a avenida Armando de Oliveira Cobra. Nesse ponto, segundo o especialista, a faixa de pedestres cumpre melhor sua função, principalmente porque houve maior recuo do prédio em relação à via, o que amplia o campo de visão e permite que o motorista reduza gradualmente a velocidade.
Além disso, há um semáforo próximo ao local, fator que naturalmente induz a desaceleração dos veículos antes da conversão, tornando a travessia mais previsível e segura. O entrevistado também ressalta que, em todas as curvas de acesso ao Aquarius, existe um semáforo anterior. Mas, quando o sinal está aberto os veículos retomam a velocidade regulamentada de 60 km/h e a simples presença do semáforo, por si só, não garante segurança se não houver tratamento geométrico adequado no ponto da faixa.
Outro fator que agrava o cenário é o comportamento induzido nos pedestres. Diante do medo de atravessar nesses pontos, muitos acabam buscando locais fora da faixa, tentando identificar brechas no fluxo – o que aumenta ainda mais a exposição ao risco.
Especialistas em mobilidade urbana apontam que, em vias arteriais com limite de 60 km/h, a simples implantação de faixa de pedestres, sem medidas complementares, tende a gerar conflitos. Soluções técnicas mais eficazes incluem:
– Criação de áreas de desaceleração antes da conversão;
– Ilhas de refúgio para pedestres;
– Recuo maior das faixas em relação à curva;
– Semáforos específicos para pedestres;
– Redução física de velocidade (traffic calming) nos acessos.
Prefeitura
Em nota, a prefeitura informou que as faixas estão posicionadas em ponto de interesse dos pedestres, com maior visibilidade para os condutores. Segundo o município, deslocar a faixa mais para o interior da curva comprometeria essa visibilidade e aumentaria a probabilidade de travessias fora da área demarcada, já que os pedestres tenderiam a evitar um deslocamento maior, elevando o risco de acidentes.
A prefeitura afirmou também que a sinalização existente está em conformidade com as normas técnicas e a legislação vigente, encontrando-se em adequado estado de conservação. A administração informou ainda que toda a sinalização viária da avenida Cassiano Ricardo será revisada com a implantação do Parque Una, projeto que prevê novos focos semafóricos e novas faixas de pedestres ao longo da via.
Cenário de riscos
Enquanto não há uma solução concreta, moradores e frequentadores do Aquarius seguem convivendo com um cenário que expõe diariamente motoristas e pedestres à mesma pergunta: se a sinalização existe para salvar vidas, por que, nesses pontos, ela parece colocá-las em risco?







