Polêmica da “bolsa-crack”; um profundo equívoco de interpretação da imprensa e opinião pública!


“Projeto Recomeço” do governo estadual sofre absurda distorção. Viciados – nem parentes – receberão auxílio em dinheiro; valor de R$1.350,00 irá direto para as clínicas de reabilitação. Programa coordenado por um dos maiores especialistas em dependência química do Brasil

Ter boa vontade para fazer alarde é fácil, difícil é compreender com coesão e serenidade o novo programa social do governador Geraldo Alckmin. Dentre críticas e reclamações, prevalece a certeza de que boa parte da imprensa e também da opinião pública não compreenderam – ou fizeram grande esforço para tal – as reais diretrizes que regem o “Projeto Recomeço”, pejorativamente chamado de “bolsa-crack”.
Para começar, o coordenador do programa será o renomado psiquiatra e escritor, Ronaldo Laranjeira, simplesmente a maior autoridade em dependência química do Brasil – e talvez até do mundo. Radicalmente contra a descriminalização das drogas, Laranjeira já criticou publicamente até mesmo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que virou um convicto defensor da liberação da maconha.
Ronaldo Laranjeira é pesquisador rigoroso, titular do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP, diretor do INPAD (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e outras Drogas) e coordenador da UNIAD (Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas).
Mas vamos lá, caro leitor, afinal de contas, o que é o “Projeto Recomeço”? Como ele funciona? Antes das respostas, uma breve reflexão. Somente em São José dos Campos o número de dependentes de crack é estimado em quatro mil pessoas. Agora, imaginem em todo o nosso vasto estado de São Paulo? Seria simplesmente inviável contar com instituições públicas e leitos públicos em todas as cidades paulistas para dar atendimento aos dependentes químicos. Esse trabalho terá de ser feito também por instituição privadas, devidamente credenciadas.
O governo do Estado de São Paulo estabeleceu o valor de R$ 1.350 para pagar por esse serviço. Anotem: o dinheiro não será dado ao viciado e nem a sua família. A verba será repassada diretamente à instituição que prestar o serviço! A família receberá apenas um cartão atestando que seu parente encontra-se em tratamento em determinada clínica. O objetivo é saber se o serviço está mesmo sendo prestado, abrindo a possibilidade de avaliar a sua efetividade ou não. Isso é bolsa-crack, prezado leitor?
Nosso governador pode ter muitos defeitos, mas não é inconsequente – nem insano – de fornecer dinheiro aos chamados “nóias” que vagam pelas ruas. Alckmin nunca foi um “liberacionista”. Isso vai além de sua função política, já que o governador é médico formado pela Faculdade de Medicina de Taubaté – como era classificada a instituição de ensino antes de crescer e virar Unitau. Exemplo disso é a polêmica internação involuntária, além do projeto que estipula retenção de até oito anos para menores que cometerem crimes hediondos.
Falar em “Bolsa Crack” sugere que o governo repassará aos familiares dos dependentes R$ 1.350 para que gastem como lhes der na telha. Isso não existe! O dependente que quiser tratamento poderá contar também com a rede privada, se a pública não puder atendê-lo. Uma vez cadastrado, sua família recebe o cartão. Não é um cartão de débito nem de crédito, mas de mera identificação. E por que fica com a família? Porque esse tipo de doente é sabidamente arredio a controles.
É absurda a interpretação de que se trata de uma “bolsa”. Fosse assim, melhor seria dar R$ 1.350 às famílias dos alunos que só tiram nota dez no boletim, não é mesmo? Não se trata de um prêmio ou de uma compensação para a família que tem em casa um viciado. Não! Já que o estado brasileiro decidiu que a dependência química é uma doença e que existe a urgência social de tratá-la, que se faça isso, então, de maneira organizada. De resto, o programa estará em boas mãos. Ronaldo Laranjeira não é um desses que, com a mão direita, oferece tratamento aos dependentes e, com a esquerda, facilita o acesso àquilo que os mata.
Ao contrário: ele tem a clareza — mera questão de lógica elementar — de que, junto com o tratamento, é preciso criar dificuldades para a circulação de substâncias entorpecentes. Só o tempo dirá, mas talvez esta seja uma das mais eficazes ações antidrogas já praticadas no Brasil. Para combater o crack, somente com internação e apoio médico constante e de qualidade. Você conhece outra forma, caro leitor?

Marco Osio Pugliesi


LIFE | artigos - Publicado 06:09 | - Redação

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