Proteção da APP busca garantir a regeneração da mata e impedir o avanço de espécies invasoras no Jardim Aquarius

Quem passa pelo Jardim Aquarius zona oeste de São José dos Campos e observa o Córrego Senhorinha – na altura da rua Itajaí – pode notar um detalhe que desperta curiosidade: trechos cercados, com acesso restrito e placas que indicam recuperação ambiental. Longe de representar abandono ou fechamento ao público a medida faz parte de um processo técnico de restauração da Área de Preservação Permanente (APP) que acompanha o curso d’gua, que nasce na região do Colonial, na zona sul de São José.
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Segundo o secretário de Urbanismo e Sustentabilidade de São José dos Campos, Marcelo Manara, manter a área cercada é uma etapa necessária para garantir que o trabalho ambiental tenha resultado. “Em área urbana, floresta precisa de proteção. O isolamento evita invasão, pisoteio e danos às mudas que estão em regeneração. Sem isso, o esforço de restauração se perde” explica.
A área, localizada em um dos pontos mais valorizados da zona oeste, integra um corredor verde urbano fundamental para a qualidade ambiental da região. Mas, além da recuperação do solo e do plantio de espécies nativas (veja abaixo) o local enfrenta um desafio menos visível, mas decisivo: o avanço de espécies exóticas invasoras, especialmente a leucena (Leucaena leucocephala).
APP não é parque — é Área de Proteção Permanente

Apesar de muitas vezes confundida com parque ou área de lazer a faixa ao longo do Córrego Senhorinha é classificada como APP — Área de Preservação Permanente, conforme a legislação ambiental. Isso significa que sua função principal é proteger o curso d’gua, o solo, a fauna e a vegetação, reduzindo riscos de erosão, assoreamento e enchentes. Manara reforça que o acesso irrestrito compromete diretamente esse objetivo. “APP não é área de lazer. É uma área técnica de proteção ambiental. Em ambiente urbano, se não houver controle, a degradação acontece muito rápido” afirma.
A ameaça que não aparece na foto: a leucena
Um dos principais desafios ambientais ao longo do Senhorinha é a presença da leucena, uma árvore de crescimento rápido que, embora pareça inofensiva à primeira vista, é classificada em estudos técnicos como espécie exótica invasora em diversos contextos urbanos e ribeirinhos.
O problema está no seu comportamento. “A leucena produz uma grande quantidade de sementes. Mesmo após o corte essas sementes ficam no solo e germinam por anos. Por isso, o controle não é pontual, ele precisa ser contínuo” explica Manara. Em áreas de córrego estas sementes são facilmente transportadas pela água, espalhando-se por toda a margem. “Na prática, isso significa que retirar a leucena uma única vez não resolve o problema. O controle exige monitoramento contínuo por vários anos, com erradicação recorrente para impedir que a espécie volte a dominar o ambiente” complementa o secretário.
Riscos e ameaças causados pela Leucena
Quando forma maciços densos, a leucena pode:
– Reduzir a diversidade de espécies nativas, criando áreas quase homogêneas;
– Dificultar a regeneração natural da mata, ao competir por luz, água e nutrientes;
– Alterar a dinâmica do solo e da vegetação, comprometendo o equilíbrio ecológico da APP;
– Tornar-se uma fonte permanente de reinfestação, afetando áreas restauradas rio abaixo.
Por isso, especialistas defendem que o combate a espécies invasoras não é apenas uma questão de manejo vegetal, mas de qualidade ambiental e proteção dos recursos hídricos.
Lei em discussão pode mudar o jogo

Atualmente, a retirada de árvores no ambiente urbano costuma exigir compensação ambiental, com o plantio de novas mudas. Mas, no caso de espécies invasoras essa regra pode acabar se tornando um entrave: o custo elevado desestimula a remoção e permite que o problema se perpetue. “A ideia é criar um marco legal que permita agir com critério técnico, protegendo o meio ambiente e viabilizando a recuperação das áreas”, destaca o entrevistado.
Por isso, São José dos Campos discute a criação de uma legislação específica para o controle de espécies exóticas invasoras no ambiente urbano. A proposta está em análise no Conselho Municipal do Meio Ambiente (COMAM) e, se aprovada, pode facilitar ações de erradicação sem exigir compensações que inviabilizem o processo. A situação do Córrego Senhorinha é um dos exemplos práticos que justificam essa discussão.
Educação ambiental e parceria com escolas

Além da função ecológica, a APP do Senhorinha também cumpre um papel educativo. Em trechos próximos a instituições de ensino a área é utilizada como espaço de educação ambiental, permitindo que alunos tenham contato direto com a natureza, aprendam sobre recuperação de áreas degradadas e compreendam a importância da preservação dos cursos d’água.
O município também mantém iniciativas que permitem parcerias com escolas e empresas, integrando projetos de restauração, manutenção e educação ambiental, fortalecendo o cuidado coletivo com as áreas verdes urbanas. “Essas áreas também são salas de aula a céu aberto. Elas ajudam a formar consciência ambiental e mostram, na prática, o valor da preservação”, enfatiza o especialista.
Um corredor verde em formação
A APP do Senhorinha não está isolada. Ela faz parte de um conjunto de áreas arborizadas que conectam fragmentos florestais, arborização viária, rotatórias, praças e novos plantios, formando um verdadeiro corredor ecológico urbano na região do Aquarius e da ponte estaiada.
Mais do que plantar árvores o desafio agora é garantir que elas permaneçam, cresçam e cumpram sua função ambiental ao longo do tempo.
Sendo assim, o trabalho mais importante ocorre no longo prazo, longe dos holofotes, na luta diária para proteger a água, a mata e o equilíbrio ambiental em meio à cidade e à selva de pedra “aquariana”.
Pomares nativos educativos reforçam a recuperação ambiental
Além da restauração da mata ciliar e do controle de espécies invasoras a área também recebeu pomares nativos educativos, formados por árvores frutíferas típicas da Mata Atlântica e do Cerrado, biomas que fazem parte da história natural da região.
No local, foram plantadas espécies como abiu, araçá, araticum, cabeludinha, cambucá, cambuci, pitanga, grumixama, cereja-do-Rio-Grande, uvaia, juçara, jabuticaba, jaracatiá, bacupari e gabiroba — frutas que por muitos anos fizeram parte do cotidiano regional, mas que hoje são pouco conhecidas pelas novas gerações.

A iniciativa integra um programa municipal que tem como objetivo implantar pomares de árvores frutíferas nativas em diferentes regiões da cidade, resgatando o contato da população com espécies locais e fortalecendo a educação ambiental. Segundo Manara, o foco vai além da produção de frutos. “Estes pomares têm um papel educativo e ambiental. Eles ajudam a reconectar as pessoas com as frutas da nossa região e mostram a importância dessas espécies para a fauna, para o solo e para o equilíbrio dos ecossistemas urbanos”, explica.
Além de favorecer aves e outros animais silvestres os pomares contribuem para a diversificação da vegetação, fortalecem os corredores verdes urbanos e transformam áreas de recuperação ambiental em espaços de aprendizado a céu aberto.
A cidade já conta com 55 pomares, que somam o plantio de cerca de 2.500 árvores frutíferas distribuídas em diversas áreas públicas.
No caso do Senhorinha os pomares reforçam o conceito de que preservar não é apenas cercar ou plantar, mas criar vínculos entre natureza, educação e comunidade. Vamos preservar!







2 Respostas
Plantar uma árvore é mais dificultoso e custoso do que derrubar uma?
A nascente deste córrego não nasce no Colonial e sim no Campos dos Alemães ao lado da Av. Salinas.
E também a reportagem faltou mencionar o maior problema do córrego, que é o lançamento de esgoto no córrego de águas pluviais, causado poluição dessa remanescente do Paraíba do Sul, durante todo o trajeto do córrego com odor forte e coloração escura, bem perceptível no trecho do Jd. América e Jd. Aquarius, e depois desaguando no Rio Paraíba.