Citação a “golpe” e tom emotivo marcam discurso de Dilma no julgamento do impeachment

Presidente afastada se emocionou ao citar torturas sofridas sob o regime militar e a luta contra um câncer. No plano técnico, reafirmou sua inocência por crime de responsabilidade

Dilma no SenadoDa tribuna do Senado, a presidente afastada Dilma Vana Rousseff escreveu um novo capítulo da inflamada história da política nacional ao se defender do impeachment que deverá abreviar a sua passagem pelo poder. Em 46 minutos de discurso, prevaleceu a versão de vítima de um “golpe”, o tom político e emocional, com minucioso resgate de seu passado. No ponto alto da retórica, ela se emocionou ao citar as torturas sofridas sob o regime militar e a luta contra um câncer. No plano técnico, reafirmou sua inocência por crime de responsabilidade. No processo deflagrado em dezembro de 2015, Dilma é acusada de ter editado decretos de suplementação orçamentária sem autorização do Congresso e de atrasar repasses a bancos públicos para maquiar resultados fiscais.

— No presidencialismo previsto em nossa Constituição, não basta a eventual perda de maioria parlamentar para afastar um presidente. Há que se configurar crime de responsabilidade. E está claro que não houve tal crime. Quem afasta o presidente pelo conjunto da obra é o povo e, só o povo, nas eleições — sustentou Dilma.

Consciente de que dificilmente irá evitar o impeachment, Dilma fez um discurso contundente e, se evitou citar o nome de seu vice e presidente interino, Michel Temer, por reiteradas vezes atribuiu o afastamento à disposição de não ceder às chantagens do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Em referência indireta a Temer, Dilma disse que o impeachment “resultará na eleição indireta de um governo usurpador”. Como planejado em reuniões no Palácio da Alvorada, ela mandou um recado cifrado a ex-ministros que, agora, estão inclinados a votar a favor da sua deposição, entre eles Edison Lobão (PMDB-MA), Eduardo Braga (PMDB-AM) e Marcelo Crivella (PRB-RJ).

 — Se alguns rasgam o seu passado e negociam as benesses do presente, que respondam perante a sua consciência e perante a história pelos atos que praticam. A mim cabe lamentar pelo que foram e pelo que se tornaram — afirmou.

Dilma começou o pronunciamento lembrando que foi eleita por 54 milhões de votos. Citou trechos do juramento de posse, no qual jurou cumprir a Constituição, mas reconheceu ter descumprido promessas de campanha.

— Posso ter cometido erros e não ter alcançado o que esperavam de mim — admitiu Dilma ao ser inquirida por Aécio Neves (PSDB-MG), após o término de sua manifestação inicial.

A petista, aliás, reafirmou que os adversários não aceitaram o resultado das urnas, partindo para suposta trama ardilosa, na qual o julgamento não respeita o devido processo legal.

— Lamento que o senhor não cumpra os mínimos princípios. Fico estarrecida — disse Dilma, questionando manifestações prévias a favor do impeachment por parte de seus julgadores, em duro embate com o senador José Aníbal (PSDB-SP), que conhece a presidente há 50 anos e também militou em organizações clandestinas nos tempos de ditadura.

Em vários momentos, Dilma comparou o processo de impeachment ao período em que foi presa e torturada, no final dos anos 1960, por combater a ditadura militar. Pela segunda vez, declarou, a democracia estava sentada com ela no banco dos réus, e apelou à consciência dos senadores ao prever que “todos seremos julgados pela história”.

Com os olhos marejados, a petista disse duas vezes ter encarado a face da morte, “quando fui torturada por dias seguidos, submetida a sevícias que nos fazem duvidar da humanidade e do próprio sentido da vida; e quando uma doença grave e extremamente dolorosa poderia ter abreviado minha existência”. Num último apelo, se dirigiu aos indecisos, pontuando que a deposição exige crime cometido de forma intencional, o que alega não ter feito.

— Façam justiça a uma presidenta honesta, que jamais cometeu qualquer ato ilegal, na vida pessoal ou nas funções públicas que exerceu. Peço: votem contra o impeachment. Votem pela democracia — suplicou.

Na fase de perguntas, aliados pediam que Dilma falasse das políticas públicas e programas sociais do governo, enquanto os adversários rebatiam a tese do golpe.

— Golpe com a supervisão do Supremo Tribunal Federal? O STF é o órgão a quem compete, em última instância, a guarda da Constituição. João Goulart não tinha a quem recorrer. A senhora tem — rebateu Aloysio Nunes (PSDB-SP), após Dilma comparar sua possível deposição às quedas de Jango e de Getúlio Vargas.

Até as 22h10min desta segunda-feira, 42 senadores haviam questionado Dilma. A sessão será retomada na terça-feira para o último capítulo dessa narrativa histórica: a votação final, prevista para se encerrar na madrugada de quarta-feira, poderá colocar a petista como a segunda presidente do Brasil cassada após a redemocratização.



LIFE | politica - Publicado 00:20 | - Redação

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